CeN

Culturas em Negativo


Membros:
Coordenadora: Micaela Ramon
Investigadores doutorados:
a) da área das ciências da literatura: Ana Ribeiro, Sérgio Sousa, Paula Lago e Orlando Grossegesse.
b) da área das ciências da cultura e da filosofia: Mário Matos, Fernando Machado, Manuel Gama, Acílio Rocha e José Manuel Curado.
c) da área da linguística: Fernando Alves e Emília Pereira.

Outras instituições associadas: CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e CARISM (Centre d'analyse et de recherche interdisciplinaire sur les médias - Université Panthéon-Assas (Paris 2), Sorbonne Université.

Descrição do Grupo de Pesquisa:

Olhar a história das sociedades através de uma ótica a que chamamos a(s) cultura(s) em negativo é o propósito fundamental deste grupo de pesquisa, internacional e interdisciplinar, tendo os Estudos Culturais por área científica de partida.

O desiderato que preside à criação deste grupo consiste em promover o estudo sistemático de todas as correntes e discursos centrados numa perceção negativa do “Outro” (p. ex. antissemitismo, anticlericalismo, antibritanismo), na história de Portugal, mas também na sua articulação com a história europeia e de outras mundividências culturais e civilizacionais. Utilizando a metáfora do negativo fotográfico, pretendemos abordar criticamente e caracterizar as mais diferentes formas de produção cultural que enquadramos no conceito de cultura negativa.

Na realidade, a história da cultura e da mentalidade portuguesas e europeias foi e continua a ser marcada por conflitos ideológicos e sociais que têm gerado dinamismos de confrontação de longa duração entre grupos socioculturais, etnias, religiões, géneros e classes. Fomentados por uma propaganda mais ou menos intensiva, os movimentos e grupos em oposição ao longo da História procuram demonizar o “Outro”, isto é, fazer do adversário, que querem combater ou mesmo eliminar, o inimigo por excelência do bem da(s) nação(ões), do progresso social e da libertação de um determinado jugo que se julga pesar sobre a comunidade dos cidadãos. Essa confrontação resultante da dificuldade de acolher e aceitar o “Outro” na sua diferença em termos de mundividência, modos de viver, acreditar e pensar, pode provocar importantes fraturas na(s) sociedade(s) e na(s) cultura(s), as quais são fundamentais para compreender as derivas da história e algumas questões que ainda hoje são objeto de debate aceso.

Como acontece com as nações europeias mais antigas, no caso específico de Portugal, a cultura e a história do país conheceram numerosos discursos e práticas que antagonizam o “Outro”. Apesar dos diferentes veículos e impactos, todos estes discursos (genericamente designáveis através do conceito de “anti”) têm recorrido a diversas estratégias para apresentar a mundividência, o estilo de vida, as crenças ou a ideologia de outros como uma ameaça aos valores positivos de cada sociedade. Na medida em que respondem a debates ideológicos em curso ou a conflitos e tensões existentes entre grupos/classes/etnias/géneros e religiões, estes discursos são “novos”.


Objetivos de Grupo de Pesquisa:

Este grupo de pesquisa pretende contribuir para a análise e compreensão histórica, cultural e ideológica das imagens construídas, em forma de execração, em torno das diferentes mundividências, modos de estar, de pensar e agir que se afirmaram culturalmente e marcaram mentalidades e comportamentos sociais. Neste particular, assinale-se que, de algum modo, a modernidade se tem também caracterizado, para além da recusa ou execração, pela recuperação de modelos, imagens de mundo, estereótipos e arquétipos, sendo tal movimento frequentemente acompanhado, de forma implícita ou explícita, de rasuras, aditamentos ou reescritas que visam reenquadrar os fenómenos em questão. O trabalho desenvolvido pelo grupo de pesquisa poderá portanto, na perspetiva da definição do novo como confronto com o Outro, contribuir também para uma análise das zonas de sombra que intermedeiam esse confronto e que plausivelmente permitem o redimensionamento e reformulação de um e outros dos opostos, para além de concorrer para uma melhor compreensão das formas de recuperação, reformulação e reposicionamento desses fenómenos e discursos, nomeadamente no que se reporta a uma perspetiva crítica da arte, da comunicação e dos discursos nelas implicados.

O trabalho do grupo, para além dos resultados a médio prazo já assinalados, permitirá desenvolver, de forma autónoma ou conjuntamente com outros grupos ou instituições, investigação de interesse cultural e económico para vários setores da sociedade, a exemplo do setor do património, do ensino, da publicidade ou da comunicação social e empresarial.

Decorrendo da investigação já em curso para a elaboração de um “Dicionário dos Antis”, prevê-se que da globalidade dos trabalhos do grupo resultem contribuições significativas, nomeadamente no que toca às áreas dos estudos culturais, de género, ou outras, e que, em conjunção com o núcleo estruturante dos estudos literários, possam ser pertinentes na abordagem dos desafios societais contemporâneos marcados por diversos tipos de conflitos (culturais, geracionais, de género, de identidade individual ou de grupo, entre outros).