LIHAM

Limiar Humano / Animal / Máquina


Membros:
Investigador responsável: Sérgio Paulo Guimarães de Sousa.
Vice-coordenadores: Isabel Cristina Pinto Mateus.

Investigadores doutorados do CEHUM:
Ana Lúcia Curado; Anabela Pinto; Cristina Álvares; Isabel Cristina Pinto Mateus; Jaime Becerra Costa; José Manuel Curado; Luís Mourão; Rosário Girão Santos; Sérgio Paulo Guimarães de Sousa.

Investigadores não doutorados do CEHUM:
Paulo Alexandre Castro; Pedro Meneses; Simona Vermeire.

Colaboradores de outras universidades:
Ana Isabel Moniz (Universidade da Madeira), André Corrêa de Sá, Erik Van Achter (Univ. de Leuven), Iván Martín Cerejo (Universidade Autónoma de Madrid), João Paulo Braga, Marcia Arruda Franco (Universidade de São Paulo), Patrícia Ferreira (Brown University), Paulo Motta Oliveira (Universidade de São Paulo), Sílvia Cabral Teresa (Brown University), Simele Rodrigues (Univ. de la Rochelle).

Descrição do Grupo de Pesquisa:

O presente grupo de pesquisa (doravante LIHAM) compõe-se por um conjunto de investigadores proveniente de diversas áreas científicas. Esta heterogeneidade visa fomentar uma investigação interdisciplinar. Ou seja, um estudo aprofundado do tema em pauta de um modo tão abrangente quanto possível, desde logo porque sujeito a visões e parâmetros de análise distintos. Assim, se é verdade que de um modo ou de outros a maioria dos investigadores provém de uma matriz científica assente nos estudos de teoria e crítica literárias, não menos verdade é que, todos eles, entretanto, desenvolveram competências hermenêutico-analíticas noutros domínios científicos. Deste modo, as diversas áreas pertinentes para a pesquisa pretendida acham-se contempladas, a saber: estudos literários (Carlos Cunha, Isabel Cristina Pinto Mateus, Luís Mourão, Cristina Álvares, Sérgio Sousa), Estudos de Cinema (Luís Mourão, Sérgio Sousa), Estudos Clássicos e de tradução (Ana Lúcia Curado), Estudos de Filosofia, com especial incidência na bioética (José Manuel Curado) e Estudos Interartes (Isabel Cristina Pinto Mateus).


Estrutura organizativa do Grupo de Pesquisa:

O Grupo de Pesquisa organizar-se-á em função de três etapas. Cada uma corresponde a um momento-chave da investigação. A primeira intitula-se “Figurações da Animalidade” e visa recensear no corpus heterogéneo (os existentes textuais a analisar são oriundos não apenas da literaturas, mas igualmente do cinema e da pintura) a presença constituída da figura do animal. Isto é, pretende verificar o modo como a animalidade surge textualmente representada e, por extensão, aferir da sua pertinência estético-expressiva, mas também discursivo-narrativa, no seio da narrativa (literária, pictórica, cinematográfica) em que se insere. A segunda etapa, com o título de “Transfiguração Animal”, debruça-se nas diferentes formas pelas quais protagonistas humanos se convertem parcial, total ou intermitentemente em figuras animalescas, como é, a título de exemplo paradigmático, o caso de Gregor Samsa em A Metamorfose (F. Kafka). Nesta etapa será, entre outros aspetos, especialmente relevante analisar processos metamórficos bem como todas as conexões pelas quais a humanidade se trans-substancia em animalidade. Por fim, a terceira e última fase, “Pós-figurações e hibridismos ontológicos”, presta demorada atenção em todas as figurações pós-humanas que consubstanciam id/entidades híbridas, aqueles que resultaram de fusões entre matéria humana e matéria pré-, proto- ou para-humana (animalidade) e pós-humana (máquinas com o seu inesgotável e triunfante leque de próteses tecnológicas). O estudo destas figurações pós-humanas híbridas, muito tributárias do irrestrito triunfo da tecnologia, fornecerá material suficiente no sentido de traçar uma cartografia do imaginário que começa a predominar já em certos círculos (realidades virtuais, ciberespaço, ficção científica, etc.). Estas três etapas, enfim, permitirão suscitar uma reflexão em torno de conceitos adjacentes, como sejam: cultura, violência, barbárie, bioética, tecnologia, civilização, conceitos esses que convocam uma crítica de várias facetas do humanismo (metafísica, antropocentrismo, antropomorfismo, autonomia do sujeito do conhecimento), bem como do pós-humanismo (indiferenciação das espécies).


Objetivos de Grupo de Pesquisa:

O LIHAM parte da constatação da emergência do estudo da relação humano-animal nos Estudos literários e campos disciplinares afins. Impulsionado por resultados científicos provenientes da biologia, da etologia e da ecologia e por novas ideias filosóficas e políticas (Agamben, Derrida, Deleuze, Cavell, Singer, Sloterdijk, Haraway, etc.), ambos inspirando a formação do novo campo interdisciplinar dos ‘Animal Studies’, a abordagem do fenómeno humano a partir de e com o fenómeno animal tem conhecido, desde as últimas décadas do século XX, mas sobretudo a partir de 2000, um desenvolvimento exponencial, principalmente no mundo anglo-saxónico (cf. http://www.animalstudies.msu.edu/bibliography.php).

O LIHAM estuda no imaginário ocidental, nalgumas das suas artes fundamentais (literatura, cinema, pintura), e isso numa perspetiva capaz de confrontar cronótopos diferentes (séculos XX e XXI), as diversas figurações da animalidade e, com isso, o alcance histórico-político-cultural e epistemológico das respetivas significações metafórico-simbólicas. O estudo, conforme ficou enunciado no ponto anterior, obedecerá a três etapas distintas, mas não tão distintas que não se possa discernir entre elas uma sequencialidade lógica, etapas essas que fornecerão uma visão, tão aprofundada quanto possível, da evolução do homem neste presente já tão marcado por condicionantes pós-humanos e pela exigência ontológica e ética de repensar a fronteira, decididamente instável, entre humano e animal. O intuito geral do estudo consiste, pois, na reflexão da condição humana contemporânea, reflexão, cremos, indiscernível desde logo no reverso feroz e obsceno dessa mesma condição. Trata-se do lado animal do homem, tanto o presente no animal de estimação que se preza com sentimentos de afeto que o aproximam da condição humana (como não raro acontece com os animais domésticos), como nos animais cujo fascínio reside na fobia e na angústia que nos instigam (animais horripilantes, por exemplo). Mas também (e sobretudo) se trata de constatar esse lado obsceno nas mutações animalescas (fantásticas) do corpo humano (sob pano de fundo psicanalítico e não apenas). Trata-se ainda do lugar do animal (a fera, o predador) na génese da forma de vida humana, i.e., no processo de hominização por cinegetização da espécie, processo que coloca dramaticamente a questão da (des)continuidade entre natureza e cultura. Finalmente, não é de descurar a emergência pós-humana, aferível pela tecnologia protésica, por exemplo. Ora é na arte em geral, nas narrativas que a sustentam, que podemos desde logo constatar de modo bem penetrante estas diferentes latitudes da condição humana.

Convirá enfatizar que este estudo, na sua abrangência, pretende refletir sobre questões atinentes à contemporaneidade e pelas quais, com maior ou menor clarividência, se antevê a emergência de paradigmas e modos de ser (e parecer) futuros: bioética, pós-humanidade, barbaridade vs. cultura, etc. Todos estes tópicos, e outros correlacionáveis, tornam-se fundamentais para perceber e definir a realidade atual. Dificilmente se pode perspetivar uma definição das sociedades contemporâneas que não atenda à análise atenta e demorada de tais tópicos. Ora, os textos artísticos, não se duvide, constituem um material propício para tais reflexões, como igualmente procuraremos demonstrar com o nosso projeto de investigação.

A pesquisa materializar-se-á previsivelmente nos seguintes resultados palpáveis: tradução de 2 textos de (Aristóteles), 3 livros (Figurações, Transfigurações, Pós-figurações); 1 ou 2 artigos por investigador por ano; 1 seminário por ano aberto à sociedade (ou em circuito fechado); 2 ou 3 colóquios organizados internacionalmente.

Finalmente, tendo em conta a diversidade de perspectivas e de áreas implicadas, o projeto mostra-se socialmente relevante por permitir uma abordagem multidisciplinar de algumas das questões mais prementes da contemporaneidade, desde logo as que se cruzam com as contradições do humanismo, a reflexão alargada sobre a Europa, a instabilidade da fronteira animal-humano-máquina nas sociedades contemporâneas enquanto sinalização da barbárie, a animalidade humana pós-crítica, a emergência de novos paradigmas e modos de ser nos domínios, entre outros, da ciência e da bioética, da cibercultura, da sociologia, do ambiente e das artes. O projeto permite assim, pela atualidade, abrangência e relevância das questões levantadas, descentrar a reflexão relativamente ao meio académico promovendo a interação com a sociedade nomeadamente ao nível do debate público e on-line (através de seminários, colóquios, publicações) bem como potenciar a dinamização da oferta cultural (filmes, teatro, exposições, etc) mediante a articulação com os diversos agentes e espaços culturais locais e nacionais ( Theatro Circo, Museu da Imagem, GNRation, Centro Cultural Vila Flor, Plataforma das Artes, entre outros).