Seminário WOMANART #22 – 22/09 – Phillip Rothwell (Univ. Oxford)

Dia 22 de setembro de 2020, decorreu, online via zoom, o  Seminário WOMANART #22, com o Professor Phillip Rothwell (Univ. Oxford) e a apresentação: A Mãe Negra torna-se Mãe Transnacional: A Evolução da Maternidade na Literatura Angolana de Alda Lara a Djina.

Breve nota biográfica: Phillip specializes in the literatures and cultures of Portugal and Lusophone Africa. He favours psychoanalytic theory as a tool to furthering our understanding of Portuguese culture and its imperial aftermaths. An authority on the Mozambican writer Mia Couto and the Angolan author Pepetela, his current research focuses on disavowal as a structuring discourse in Portuguese colonialism. Phillip lectures on Lusophone African and Portuguese authors with a particular focus on the twentiteth and twenty-first centuries. He leads undergraduate seminars on Angolan and Mozambican culture. He aso regularly teaches translation classes. At the graduate level, he oversees the Portuguese methodology seminar, the Portuguese Research Seminar and co-teaches modules of the Women’s Studies MSt with Professor Claudia Pazos Alonso.

Veja a gravação do seminário aqui:

Ciclo de seminários

O ciclo de seminários acoplado ao projeto WOMANART foi concebido como uma forma de convocar peritos nas áreas sob investigação, de forma a aprofundar, atualizar e aferir o conhecimento compilado e disseminado pela equipe de investigação reunida em torno deste projeto. Os seminários também são uma forma de divulgar o projeto, tanto a nível nacional como a nível internacional. Assim, ao longo dos 21 seminários já realizados foram convidados peritos de diversas universidades, sobretudo de Portugal, Brasil, EUA e Reino Unido. A equipe também procurou estender os convites a curadores, galeristas, escritores e artistas, privilegiando sempre a obra que nos foi legada por mulheres enquanto pensadoras ou criadoras de arte. Os temas dos seminários têm focado sobretudo as memórias filmadas, fotografadas ou escritas (em termos de ficção, drama e poesia) das ditaduras portuguesa e brasileira de meados do século XX, incluindo a vertente colonial da ditadura portuguesa. A própria história dos movimentos de mulheres durante este período também foi abordada por vários oradores, bem como as dificuldades de acesso a oportunidades e meios para as mulheres artistas.

Todos os seminários que foi possível filmar estão disponíveis online, no sítio do projeto. 

Entrevistas WOMANART

O conjunto de entrevistas desenvolvidas pela equipe WOMANART tem por objetivo fixar um testemunho vivo do que foi viver e resistir às ditaduras de Portugal e do Brasil. As entrevistas reunidas dão voz a galeristas, jornalistas, cineastas, escritoras e artistas que nos falam do seu percurso pessoal e do seu legado. No caso de artistas mais recentes reflete-se sobre os reflexos do passado nas vivências e debates do presente.

Depoimentos de escritores/as e pesquisadores/as sobre a ditadura no Brasil (GELBC)

O Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (GELBC) tem disponibilizado no YouTube, depoimentos de escritores/as e pesquisadores/as sobre a ditadura no Brasil. Os depoimentos de mulheres como Maria Valéria Rezende, Tânia Pellegrini, Eurídice Figueiredo e Ilana Heineberg já encontram-se disponíveis e ainda há diversos outros a serem divulgados.

EXPOSIÇÃO Earthkeeping / Earthshaking – arte, feminismos e ecologia

Vista de exposição; Earthkeeping/Earthshaking – arte, feminismos e ecologia; Galeria Quadrum; 2020. ©António Jorge Silva

Texto e imagem: https://galeriasmunicipais.pt/

Tomando a 13.ª edição da revista Heresies  como ponto de partida, esta exposição propõe uma reflexão fértil acerca da triangulação entre arte, ecologia e feminismos. A exposição Earthkeeping /Earthshaking - arte, feminismos e ecologia pretende, assim, afirmar o papel pioneiro desempenhado por numerosas artistas neste âmbito específico e, ao mesmo tempo, problematizar a operacionalidade do seu contributo no presente. Assim, a exposição reúne um conjunto de obras e de material documental de artistas que – através da articulação de olhares e práticas bastante heterogéneos – questionaram, nos anos 70 e início dos anos 80, a relação do indivíduo ou colectividade com o ambiente natural, as dicotomias entre natureza e cultura, a associação tradicional do feminino com as forças da natureza, as relações complexas entre capitalismo avançado, histórias coloniais e destruição do ambiente.

LEIA MAIS EM: https://galeriasmunicipais.pt/

Curadoria: Giulia Lamoni e Vanessa Badagliacca

Data: 25.07.2020 – 04.10.2020

Horário: Terça a domingo – 14h30-19h

Local: Galeria Quadrum

Apoio: Istituto Italiano di Cultura – Lisbona, FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e Pro Helvetia.

Veja a entrevista “Percurso que fizemos em conjunto”, conversa com as curadoras de ‘Earthkeeping / Earthshaking: arte, feminismos e ecologia’ realizada com as curadoras e divulgada pelo Portal BUALA.

Entrevista com Beatriz Leal (por Edma Góis)

Imagem: cortesia de Beatriz Leal

Paulistana, radicada em Brasília, a jornalista Beatriz Leal, 35 anos, teve seu livro “Mulheres que mordem”, entre os finalistas do Prêmio Jabuti, o mais importante dado a escritoras e escritores no Brasil, em 2016. Ali, ela explora a experiência da ditadura argentina em uma inevitável aproximação com o Brasil. Beatriz Leal é especialista em relações internacionais e comunicação pública e vive na capital federal do Brasil desde 2004, o que segundo ela deve impactar no seu trabalho como escritora. A autora acredita que a principal relação entre a atual conjuntura política e o seu livro é que ambos são resultantes dos anos que se viveu uma democracia sem esperar que pudéssemos lidar com a violência da nossa própria história. Na entrevista a seguir, ela conta como surgiu a ideia do romance, a partir de uma reportagem da The New Yorker, além de pensar sobre o papel da arte no momento político que seu país e o mundo atravessam.

Sua trajetória como escritora é recente, mas já marcada pela indicação do seu livro para um prêmio importante no Brasil. Como você começou a escrever?

Sempre escrevi como forma de elaborar minhas questões – diários, cartas, etc. Mas não pensava em ser escritora. Em 2012, li uma matéria na revista The New Yorker (Children of the dirty war – Francisco Goldman) sobre as Avós da Praça de Maio, que me moveu a criar o universo do Mulheres que mordem. Quando o romance figurou na lista dos finalistas do Prêmio Jabuti, pensei que talvez eu pudesse, sim, continuar no caminho da literatura. Quando li essa matéria citada, eu já tinha me formado na escola, na faculdade de jornalismo e na especialização em relações internacionais, e nunca tinha ouvido falar das Avós da Praça de Maio (só das mães) e dos sequestros das crianças. Fiquei chocada com minha alienação e/ou falta de formação no assunto. Isso me inquietou demais. Não pensei: “preciso divulgar essa questão e, para tanto, vou fazer um romance”. Mas, da inquietação, as personagens nasceram em mim e a elaboração do romance me foi inevitável.

Que textos, obras sobre as ditaduras argentina e brasileira foram consultados e ajudaram na escrita de Mulheres…? Gostaria que você falasse um pouco sobre a pesquisa que antecede à escrita.

Eu mergulhei no site das Abuelas (https://www.abuelas.org.ar), que disponibiliza muito material – entrevistas com todas as avós que buscam seus netos, entrevistas com netos encontrados. Essa foi minha pesquisa. O filme O Leitor foi uma referência para eu conseguir elaborar o personagem do torturador.

Você recorda outros textos, filmes e obras de arte de artistas mulheres que tenha influenciado a sua pesquisa ou produção?

Durante a fase de pesquisa, não, infelizmente. Eu pesquisei mais a produção das próprias Abuelas, no campo da não-ficção. Mas depois que o livro ganhou certa visibilidade, fui conectada a outras autoras que abordam o tema, cito aqui algumas: Adriana Lisboa (Azul corvo), Luciana Hidalgo (Rio-Paris-Rio), Márcia Camargos (Um menino chamado Vlado), Rosângela Vieira Rocha (O indizível sentido do amor) e Sonia Bischain (Nem tudo é silêncio). No campo da teoria, a prof. Eurídice Figueiredo (A literatura como arquivo da ditadura brasileira) é referência para mim. 

Com a eleição de um militar da reserva, o avanço da extrema direita e mais recentemente de um espécie de “invasão” dos militares nesse governo, ocupando muitos cargos, voltamos a falar da ditadura no Brasil. No seu entendimento, qual o papel da arte produzida até aqui para a compreensão do que foi a ditadura brasileira e da urgência de que não se repita isso agora?

Penso que a arte é a melhor forma de elaboração de traumas e recalques coletivos. No caso da literatura, o leitor, quando interrompe outras atividades para ler um livro, ele empresta todo seu aparelho psíquico àquela voz narrativa. Não conheço meio melhor para promoção do exercício da alteridade. Nesse sentido, creio que a literatura que trata da ditadura militar no Brasil (ou na América Latina) é fundamental nesse momento, tanto quanto registro da história, como forma de elaboração do trauma. Só não sei como fazer essa literatura chegar a quem de fato necessita lê-la. Essa é a questão de um milhão de dólares.

A experiência enquanto mulher e também enquanto artista influencia a criação de novas abordagens sobre as ditaduras?

Não me sinto na posição de fazer essa avaliação. Creio que um especialista em literatura comparada poderia responder de maneira mais justa. Sei que o Mulheres que mordem explora bastante o feminino, e penso que minha experiência neste sexo contribui para isso. Mas não sei se pode chegar a ser chamado de “nova abordagem”, quando tomados como referência autores homens.

Em que medida, viver em Brasília agora te faz pensar na ditadura e outros temas políticos? Acha que vai voltar a tratar disso?

Brasília reúne pessoas de todo o país. O sotaque brasiliense, que começa a ganhar seu contorno, é uma ilustração fidedigna desse fenômeno. Viver aqui me faz ter contato direto com nossa história. Com certeza, o fato de morar aqui teve influência sobre mim quando me envolvi com o tema da ditadura militar da Argentina. Não sei se voltarei a tratar do tema ditadura militar especificamente, mas é bem possível que as relações sociais e a política pautem minha literatura no futuro.

Você vê no seu trabalho em concreto reflexos da questão do papel da mulher na sociedade em relação com a ditadura, com as suas narrativas e com os seus reflexos na contemporaneidade?

Mulheres que mordem é inteiro sobre isso. Há personagens mulheres que questionam o papel da mulher na sociedade da década de 1970, há a protagonista que, vivendo em 2005/06, manifesta os reflexos do que suas antepassadas viveram durante a ditadura. Quando escrevi o livro, não houve uma intenção. Mas esse foi o resultado. Creio que essas questões habitam o meu corpo, os nossos corpos todos.

Que papel poderá ter a arte numa altura em que regimes de tendência autoritária se instalam no Brasil, na Europa, e em que partidos extremistas ganham cada vez mais terreno? 

Acho que serão alguns papéis correndo paralelamente. O primeiro é o registro: enquanto tivermos artistas trabalhando ao lado da História, podemos saber que o futuro terá como conhecer o passado. O segundo é o escapismo: para algumas mentes, a única forma de lidar com a dor da realidade é a arte, seja criando-a, seja consumindo-a. O terceiro é a promoção da alteridade: um livro ou um filme que faça o leitor/espectador compreender a dor de determinada minoria contribui muito para a geração da empatia. E, por último, penso que a arte será a melhor forma de elaboração coletiva do trauma social que vivemos presentemente. 

Serviço:

Mulheres que mordem, Beatriz Leal. Imã Editorial. 2015.

Imagem: cortesia de Beatriz Leal

II Ciclo de Cinema WOMANART – NOVAS DATAS

No dia 24 de setembro retomaremos as sessões do II Ciclo de Cinema WOMANART, interrompidas devido ao Plano de Contingência ao COVID-19.

Veja as novas datas, que incluem uma sessão extra.

24 de setembro: Terceiro andar (2016). Realizadora: Luciana Fina.

8 de outubro: Que bom te ver viva (1989). Realizadora: Lucia Murat.

22 de outubro: Atrás de portas fechadas (2014). Realizadoras: Danielle Gaspar e Krishna Tavares.

|SESSÃO EXTRA| 5 de novembro: Diário de uma busca (2011). Realizadora: Flávia Castro.

Conheça as entrevistas com as realizadoras Danielle Gaspar, Krishna Tavares e Flávia Castro.

SINOPSES:

Kuxa Kanema (2003), Margarida Cardoso

Após a Independência de Moçambique em 1975, o novo presidente eleito, Samora Machel, criou como ação cultural o Instituto Nacional de Cinema (INC). Com unidades móveis, ele percorria as localidades do país para exibir o cinejornal Kuxa Kanema, nome com significado de “o nascimento do cinema”. O documentário reconstrói o trajeto vivido pelo INC, desde seu começo até sua decadência.

Tarrafal  Memórias do Campo da Morte Lenta (2011), Diana Andringa

O documentário recolhe as memórias do português Edmundo Pedro, um dos dois únicos sobreviventes do primeiro período no Campo de Concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. O local também era conhecido também como o “campo da morte lenta”, e foi criado pelo governo português durante o Estado Novo. Construído aos moldes dos campos nazistas, era usado para aprisionar e afastar da metrópole de Portugal todos os presos problemáticos, como os portugueses contrários ao regime do período e nacionalistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, que lutavam contra a colonização portuguesa.

Terceiro Andar (2016), Luciana Fina

Em que língua é que vamos contar as histórias que nos foram contadas? Em que língua escrever uma declaração de amor? Centro histórico de Lisboa, Bairro das Colónias, terceiro andar. Fatumata e Aissato, mãe e primogénita de uma numerosa família originária da Guiné-Bissau, discutem o amor e a felicidade. Pelas sete da tarde, do terceiro até ao meu quinto andar, ressoa pelo prédio um som regular, sempre igual, como o bater do coração. O som sobe escadas e patamares, atravessa paredes, portas e corredores, habita as casas, as cozinhas e as varandas interiores.

Que bom te ver viva (1989), Lucia Murat

Ex-presas políticas da ditadura militar brasileira analisam como puderam enfrentar as torturas e prisões, relatando as situações e como sobreviveram a esse período, onde delírios e fantasias são recorrentes. O filme intercala cenas documentais com um monólogo ficcional, que é uma amálgama dos relatos e das memórias dessas corajosas mulheres.

Atrás de Portas Fechadas (2014), Danielle Gaspar e Krishna Tavares

Atrás de Portas Fechadas é uma investigação sobre fatores determinantes na construção das convicções politico-ideológicas de mulheres durante a Ditadura Militar no Brasil. Enquanto as mulheres das organizações de esquerda lutaram pela participação política e contra a repressão, as mulheres da elite brasileira deixaram seus lares apenas provisoriamente para defende-los da “ameaça comunista”. Esses eventos influenciaram o debate sobre o comportamento e a condição da mulher na sociedade brasileira.

Diário de uma busca (2011), Flávia Castro.

Outubro, 1984. Celso Castro, jornalista com uma longa história de militância de esquerda, é encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazista, onde entrou à força. A polícia sustenta que se trata de um suicídio. O episódio, digno de um filme de suspense, é o ponto de partida de Flavia, filha de Celso e diretora do filme, que decide reconstruir a história da vida e da morte do homem singular que foi o seu pai. É uma viagem no tempo e na geografia: a diretora volta aos cenários do exílio familiar, da ilusão e do fracasso de um projeto político. As vozes imbricadas de Celso (de suas cartas) e de sua filha constroem um retrato íntimo de uma relação marcada pela história e pela ausência.

Revista Diacrítica 34.2 – WOMANART

Temos o prazer de anunciar a publicação do volume 34.2 da Revista Diacrítica – WOMANART – Mulheres, Artes e Ditadura: Os casos de Portugal, Brasil e Países Africanos de Língua Portuguesa

Website (OJS): http://diacritica.ilch.uminho.pt/index.php/dia/issue/view/12

Editores: Ana G. Macedo, Margarida E. Pereira, Joana Passos, Márcia Oliveira (CEHUM, Universidade do Minho).

Revisão: Orlando Grossegesse; Laís Natalino; Ana Correia.

Entrevista Flávia Castro (por Laís Natalino)

Imagem de: Revista de Cinema

Flavia Castro é uma realizadora brasileira que dedica-se a trabalhos em ficção e documentário. Escreveu e dirigiu o documentário Diário de uma Busca, em que investiga as circunstâncias da morte de seu pai, o jornalista, Celso Afonso Gay Castro. O documentário, lançado comercialmente em 2011, foi premiado no Brasil e no exterior e participou de mais de trinta festivais internacionais. O filme será exibido no II Ciclo de Cinema WOMANART.

Flavia Castro também trabalhou com importantes documentaristas, como Richard Dindo, em Diário do Ché na Bolívia (1994), Philippe Grandrieux, em Jogo do Bicho (1995) e Eduardo Escorel, em Imagens do Estado Novo (2015).

Em 2018, lançou seu primeiro longa de ficção, Deslembro, que teve estreia mundial na seleção oficial do Festival de Veneza 2018 (Mostra Orizzonti) e conquistou vários prémios. O filme, que também aborda a ditadura brasileira, retrata uma adolescente que vive com a família em Paris quando a Anistia é decretada no Brasil.

Entrevista Ana Clara Guerra Marques (por Marie-Manuelle Silva)

Ana Clara Guerra Marques é Mestre em Performance Artística – Dança, com a tese «Sobre os Akixi a Kuhangana entre os Tucokwe de Angola: A performance coreográfica das máscaras de dança Mwana Phwo e Cihongo», pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Licenciou-se em Dança – Especialidade de Pedagogia, pela Escola Superior de Dança de Lisboa do Instituto Politécnico de Lisboa.

É autora dos livros “A Alquimia da Dança” (1999), “A Companhia de Dança Contemporânea de Angola” (2003), “Para uma História da Dança em Angola – Entre a Escola e a Companhia: Um Percurso pedagógico” (2008) e “Máscaras Cokwe: A linguagem coreográfica de Mwana Phwo e Cihongo” (2017).

Iniciou os seus estudos em dança na Academia de Bailado de Angola em 1970 e, em 1978, passou a dirigir a única Escola de Dança existente no país, atividade que desenvolveu a par da docência.

Da sua estratégia para a defesa e projeção da dança, enquanto linguagem artística e arte performativa em Angola, fazem parte a sua prática como bailarina e coreógrafa, fundando em 1991 a Companhia de Dança Contemporânea de Angola, a primeira companhia profissional em Angola (e uma das primeiras em África).

A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola) foiconstituída em 1991 nas então estruturas do Ministério da Cultura, designada durante os dois primeiros anos como Conjunto Experimental de Dança (CED).

A companhia profissional independente, única em Angola (a quarta fundada no continente africano), constituída por bailarinos angolanos por si formados, foi desenvolvendo uma linha de trabalho singular. As peças criadas confrontam o público com as suas próprias histórias, aspetos do seu quotidiano, das suas realidades sociais, da sua condição de cidadãos de universos que se cruzam numa época em que as barreiras geográficas e culturais são superadas pelos recursos que nos disponibilizam as novas tecnologias. Estas, combinadas com outras linguagens, passaram a integrar os discursos artístico e estético da CDC Angola, onde o corpo e o movimento constituem o elemento catalisador.

A partir de estudos de investigação efetuados em várias regiões de Angola, Ana Clara Guerra Marques foi propondo diferentes vocabulários e novas linguagens, no âmbito das suas pesquisa e experimentação, apresentando outras possibilidades para a revitalização da cultura de raiz tradicional. Tem vindo, simultaneamente, a deslocar a dança para espaços não convencionais, levando o público a descobrir diferentes formas e conceitos de espetáculo, alguns em parceria com importantes nomes da literatura e das artes plásticas angolanas, entre os quais Manuel Rui Monteiro, Artur Pestana Pepetela, Frederico Ningi, Carlos Ferreira, Jorge Gumbe, Mário Tendinha, Francisco Van-Dúnem, Masongi Afonso, Zan de Andrade e António Ole.

A utilização da dança como meio de intervenção e crítica social, expondo o ser humano enquanto cidadão do mundo e protagonista da cena social angolana, está na base do trabalho da Companhia, que deu origem à rutura estética e formal da dança angolana, e que luta desde a sua criação contra os mais diversos obstáculos decorrentes da sua existência, num terreno conservador, fortemente cunhado pela quase ausência de um movimento de criação de autor ao nível da dança, praticamente absorvido pelas danças populares e recreativas urbanas.

A CDC Angola resiste numa condição de sobrevivência sem qualquer tipo de apoio institucional, mas, apesar das adversidades, e consciente da importância da sua missão inovadora, aponta novos olhares sobre a dança, tornando-se em 2009 uma companhia de Dança Inclusiva, pela integração de bailarinos portadores de deficiência física.

1 – Pode descrever-nos como se iniciou o seu percurso na dança?

R. O meu contacto com a dança deu-se, ainda na Angola colonial, através da Academia de Bailado de Luanda, que era a única escola profissional existente em Luanda. Tinha 8 anos de idade. Depois da independência, o ensino da dança em Angola foi retomado pelo estado e inscrevi-me na Escola da Dança do então Conselho Nacional de Cultura. Um ano e meio depois, era indicada para dirigir essa mesma escola, pois a professora / directora havia partido para Portugal. Começou aqui a minha “missão” na luta pela profissionalização da dança em Angola.Tinha eu 15 anos de idade.

2 – Qual era a posição da mulher na dança na época em que começou a trabalhar?

R. Eu comecei a trabalhar no início de vida de um país, onde a luta pela igualdade de classes e pela emancipação da mulher eram duas das metas traçadas. A dança existia apenas na sua forma patrimonial / tradicional e popular, onde as diferenças de género eram determinadas pela própria estruturação socio-cultural de cada grupo etno-linguístico. A dança, na sua dimensão teatral e profissional não existia. Portanto, estava nas minhas mãos instituir, antes de tudo, a dança nos seus planos pedagógico (enquanto directora e professora da única escola do país) e cénico (enquanto bailarina e coreógrafa).
Digamos que eu estava numa situação de “Pole position”, mas sem companheiros de “corrida”!

3 – Veio a abordar questões relacionadas com a ditadura no seu trabalho? De que ponto de vista?

R. Antes de mais é importante dizer que o meu trabalho, quer enquanto professora, quer enquanto coreógrafa foi sempre, de algum modo e em simultâneo, condicionado e inspirado por uma certa ditadura. Qualquer ideia ou decisão tinha de ser aprovada / censurada em “instâncias superiores” as quais, na maior parte das vezes, por falta de conhecimento sobre estas áreas mais sensíveis, tinham a mão bastante pesada. Estes impedimentos e policiamentos constantes passaram a ser recorrentes enquanto material de inspiração para o meu trabalho criativo. Enquanto coreógrafa utilizo frequentemente o humor para retratar personagens e contextos quase reais, colocando o público num desequilíbrio entre o hilariante e o dramático. Esta foi sempre a única forma de sobreviver num ambiente de ideias e conceitos absolutamente espartilhados.

4 – Várias décadas depois do 25 de abril, e desde o contexto que é o seu, há contributos sobre a ditadura, direta ou indiretamente, na dança que contribuam para um melhor entendimento do tempo em que vigorou, entre os anos 30 e os anos 70?

R. No que diz respeito à criação de autor, não. Na então província portuguesa, Angola, a dança profissional não tinha qualquer tradição. Além da Academia de Bailado que era, como acima referido, a única escola de vocação profissional, existiam alguns estúdios particulares com um carácter mais lúdico. Nunca se constituiu uma companhia de dança profissional, à semelhança do que se passava no teatro, por exemplo. Angola foi visitada pelo Ballet Gulbenkian, nos anos 70, o qual se apresentou em Luanda e em mais duas cidades com as usuais peças de repertório como O lago dos cisnes, O quebra-nozes ou o Mandarin maravilhoso. Localmente existiam alguns grupos “folclóricos” cujo enquadramento no CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola) pode considerar-se expressivo no que respeita ao olhar colonial sobre o património cultural locais. O carnaval, manifestação popular, é um dos eventos mais expressivos de leitura da ditadura colonial em Angola, o qual conserva marcas evidentes (principalmente a nível do vestuário e adereços) de uma ocupação europeia. Entre estes grupos existiam alguns (dos quais o mais antigo é o União Operário Kabocomeu) cuja dança característica, a Kazukuta, era uma forma de contestar o regime. Os dançarinos, vestidos com fatos pretos, máscaras de europeu, cartolas, botas e sombrinhas, satirizavam o poder colonial e os seus agentes políticos, em especial a classe do patronato.

5 – Acha que a sua experiência enquanto mulher, mas também enquanto artista influencia a introdução de novas abordagens a estas temáticas (totalitarismos)?

R. Não tanto enquanto mulher, mas enquanto artista alinhada e inspirada por outros colegas em todo o mundo que usam a arte como forma de alerta e intervenção, estou absolutamente convencida de que sim. É da história que as artes e os artistas marcam presença permanente na vanguarda das grandes mudanças e alterações sociais. No mundo actual, onde os movimentos racistas, fascistas, xenófobos, homofóbicos, etc. voltam a ganhar visibilidade, a nossa intervenção volta a ser fundamental.

 6 – Há no seu trabalho em concreto reflexos da questão do papel da mulher na sociedade em relação com a ditadura, com as suas narrativas e com os seus reflexos na contemporaneidade?

R. Sim, há. Nas peças que assino para a CDC Angola o tema do feminino aparece frequentemente, bem como a situação da mulher, sobretudo na sociedade angolana que é fortemente machista. Normalmente preferencio abordagens caricatas mas que mostram bem como a nossa sociedade olha e determina o “ser mulher”. A peça que estavamos a criar (eu e a coreógrafa Irène Tassembédo) antes da pandemia do Covid-19, era integralmente inspirada neste questinamento sobre a construção do “género” feminino. Estas propostas coreográficas são, a meu ver, tanto mais interessantes se interpretadas à luz do facto da Companhia de Dança Contemporânea de Angola ser, há 10 anos, uma companhia masculina e inclusiva e de Angola ter vivido, após a independência, durante cerca de quatro décadas, num modelo cruel de ditadura disfarçada de democracia.

7 – O que considera estar ainda por ser contado no que diz respeito às mulheres e à dança na época da ditadura?

R. A época da ditadura, em Angola, estendeu-se até há bem pouco tempo. Digamos que vivemos duas ditaduras; a colonial e a pseudo-socialista, entretanto transformada em capitalismo desregrado e comandado por máfias cujos tentáculos se estenderam não exclusivamente às esferas política e económica mas, igualmente, às esferas sociais e culturais / artísticas. Temos de continuar a colocar pedras neste caminho de fazer da dança uma “arma” de denúncia e combate, na esperança de que outras pessoas saiam da letargia do entretenimento, ganhem coinsciencia e tenham a coragem de o trilhar.

Luanda, 28 de Junho de 2020

Ana Clara Guerra Marques

Fotos de Rui Tavares cortesia Ana Clara Guerra Marques

Vídeo cortesia Ana Clara Guerra Marques

História da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (cortesia Ana Clara Guerra Marques)