Crónica da Quarentena – A ‘linha da frente’ (por Ana Gabriela Macedo)

Crónica da Quarentena 5

A ‘linha da frente’

Neste quotidiano de tempo dilatado, nós, os professores, somos talvez os menos ociosos, horas a fio diante do computador a desbravar plataformas, o zoom, o collaborate, o blackboard, e por aí fora! Livros empilhados nas nossas (outrora) salas de jantar ou salas de estar, agora, como dizia uma colega com muita graça, transformadas em ‘salas de aula, biblioteca, recreio, e até esplanada’.

Como quase sempre deles (de nós), fala-se pouco. Estamos sim, na linha da frente. Sem sombra de dúvidas. Não curamos feridas nos corpos, não colocamos ventiladores e máscaras de oxigénio, mas sujamos as mãos continuamente segurando as mãos dos jovens e das crianças diante de quem todos os dias nos sentamos, cara alegre, banho tomado, cabelos alinhados, perfumados até, para discutir ‘O Crime do Padre Amaro’ ou ‘A Fada Azul’, ou mesmo ‘Os Lusíadas’, ou o passé simple e o passé composé, os malvados dos ‘phrasal verbs’, ou quicá as conjunções adversativas e copulativas…!

E os miúdos tontos de sono, inquietos e espantados ainda com a nova ordem das coisas que os impele agora a sentar horas a fio diante do computador, ou da televisão, infelizmente sem ser para fazer videogames!

Mas o mais estranho de tudo é que os jovens estudantes de facto colaboram! Não faltam às aulas (lá está a mãe para dar dois gritos e pô-los da cama para fora …) e sem querer idealizar a questão, mas pelo que me é dado ver e viver, professora que sou, dedicam-se a fazer excelentes power points, como nunca antes, enviam diligentemente os ensaios pedidos para professores e colegas. Não sou psicóloga, não me cabe fazer essa análise, apenas constato o facto, e com imenso regozijo. Será que as aulas ‘dadas à distância’ são menos ‘chatas’? será que os jovens, mesmo os mais pequenos, sentem a responsabilidade do tempo presente que também não os poupou, crianças que são? O que é certo é que as coisas funcionam! E perguntem às mães sobretudo, o que fariam sem estas horas de aulas em que s filhos estão entregues (virtualmente ou não, pouco importa) aos professores! Atrevo-me a dizer, psicóloga que não sou (e curiosamente psicólogos e sociólogos têm estado muito silenciosos neste país, estranhamente, a meu ver), dizia, é o momento do colectivo também para estes jovens, o espaço possível de rever, mesmo sem poder tocar, colegas e amigos, trocar ideias, sentir que o tempo flui numa quase ‘normalidade’. Com tpc e avaliações para cumprir!

Episódios divertidos acontecem a todo o momento: um dia é o gato da casa que se consegue escapulir e passeia desavergonhadamente em frente ao ecrã, pisando as teclas do computador e criando o caos! Outro dia é o cão o vizinho que ladra e não se pode ir lá bater à porta e exigir silêncio, cortesmente ou aos berros. Outras vezes é um telefonema trágico que interrompe a aula, um familiar que foi internado ou pior ainda.

E nós, professores, pegamos nas mãos deles, creio que não só virtualmente, e dizemos fazendo das tripas coração: ‘Vamos lá, malta, quero ainda ouvir-vos falar hoje da insubordinação contra a ética Vitoriana na  Jane Eyre de Charlotte Bronte!’.

Não estaremos nós na linha da frente?

Ana Gabriela Macedo, Maio 2020