Crónica da Quarentena – Estados de excepção (por Márcia Oliveira)

Estados de excepção

“A tradição dos oprimidos ensina-nos que o «estado de excepção» em que vivemos é a regra”. Hoje, esta constatação de Walter Benjamin no texto Teses sobre a Filosofia da História[1] (que se referia ao avanço do fascismo na Europa na primeira metade do século XX) faz mais sentido do que nunca, e não é por acaso que a pertinência e actualidade das reflexões de Benjamin tem vindo a ser sobejamente notada. Enquanto nos sentíamos ainda em pleno «estado de excepção», fruto da pandemia que remeteu milhões ao espaço doméstico, fomos assolados sucessivamente por uma tomada de consciência dos «estados de excepção» que faziam já parte do mundo em que vivemos, o nosso mundo, o mundo actual, e não o mundo ‘histórico’ que vemos como pertencendo a um passado longínquo e ultrapassado. Esta é ainda a narrativa em que escolhemos infelizmente acreditar: a narrativa da progressão linear da história que se dirige a uma melhoria da sociedade que tomamos como garantida. Com o passar do tempo, e à medida que vários «estados de excepção» foram sendo expostos ou denunciados – a pobreza, a discriminação, o trabalho precário, a violência doméstica, as assimetrias no acesso à educação, o total esquecimento das margens da sociedade quer no discurso, quer nas medidas de combate à pandemia -, fomos percebendo que o nosso «estado de excepção» não era o «estado de excepção» de tantos outros. O nosso é recente e temporário, o dos outros, de tantos outros, é constante e sistémico. Como o racismo.

O tsunami mundial provocado pelo assassinato de Georges Floyd nos Estados Unidos da América provou que o racismo é de facto assunto tabu, que preferimos ignorar ao invés de enfrentar. Ou não tem sido constante a negação da existência de racismo em Portugal????? O problema, parece-me, ou uma parte dele, é que falar de racismo, reconhecê-lo como presente em nós, perpetuado por nós, implica um exercício de humildade; implica olhar sem filtros para o nosso privilégio, o privilégio do nosso recente e confortável «estado de excepção», reconhecer as várias camadas desse privilégio para, lenta mas consistentemente, o ir enfraquecendo até à anulação.

Este desafio que enfrentamos enquanto sociedade é, também, o grande desafio do feminismo hoje – o desafio da interseccionalidade, para usar um chapéu que nos abrigue a todxs.  Este é um desafio que devemos abraçar enquanto investigadorxs académicxs reconhecendo que não pode haver feminismo que faça tábua rasa da sua intersecção com o racismo, com a luta de classes, com os movimentos LGBTI+, e por aí fora.

E, por sua vez, o desafio da interseccionalidade que se coloca ao feminismo de hoje, não só mas também e de forma bastante premente no contexto académico (que é o contexto a partir do qual falo), é também um dos grandes desafios da investigação.  O ponto de vista da interseccionalidade tem não só que contaminar a nossa acção enquanto investigadorxs, mas tem também que contaminar o campo da educação, o que implica esbater fronteiras entre investigação e educação – trazer para a sala de aula de todos os níveis de ensino (independentemente da forma que esta assuma)  a complexidade do mundo em que vivemos, as diferentes perspectivas da história e das estórias contadas, as questões fracturantes, desconfortáveis e que nos põem a todos em causa. E é a forma como enfrentarmos estes desafios que vai determinar, em grande parte, a relevância do nosso trabalho enquanto investigadorxs.


[1] In Benjamin, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, ed. Relógio d’Água (Lisboa: 2012). Tradução de Manuel Alberto.